O relógio da CIVITAS IGAEDITANORVM

Teve lugar, dia 27 de fevereiro, mais uma conferência no âmbito da Peça do Mês Comentada, promovida pelo Museu Nacional de Arqueologia, apresentada por Amílcar Guerra, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e um dos autores presentes no catálogo da exposição “Lusitânia Romana. Origem de dois povos / Lusitania Romana. Origen de dos pueblos”.

Mais uma vez, partimos de uma peça “feiosa, no meio de tantas outras tão bonitas e grandes, pequena, pouco vistosa”, com um texto curto, no entanto muito significativo, para abordar diferentes aspetos da vida, da sociedade e da organização administrativa romana.

Amílcar Guerra começou então por explicar como esta inscrição sai um pouco do esquema das inscrições latinas, “um mundo visível ao longe, de grandes letras, um mundo de inscrição que todo o passante pode ler com facilidade, às vezes a uma grande distância. É uma epigrafia a que chamamos pública, às vezes até lhe chamamos uma literatura de rua”, sendo aquele muitas vezes o único texto que seria acessível às grandes massas. Nesta inscrição não houve essa preocupação de a tornar pública, talvez por ter sido elaborada ainda num processo inicial de construção das cidades.

A inscrição em si fornece muitas outras informações sobre a cidadania e a organização da sociedade. Sobre o ofertante diz-nos que, pelo facto de Quintus Tallius se dizer filho de Sextus, não seria escravo mas livre, tendo “todos os direitos políticos de um homem livre”; por ter apenas dois nomes, diz-nos que vem de uma tradição onomástica Republicana, tendo vivido durante a época de transição para o Império, período em que passa a ser introduzido um novo elemento ao nome, o cognomen, que distinguia os diferentes membros de uma família quando antes era o primeiro nome a fazer essa distinção; por fim, informa que Quintus Tallius pertencia também à tribo Papíria de Augusta Emerita, uma organização eleitoral dos cidadãos romanos, e que por isso era seguramente cidadão romano.

Este cidadão romano seria originário ou descendente de colonos provenientes “do centro da Itália, que tem esse vínculo à realidade jurídica romana e que, provavelmente, pode ser simultaneamente cidadão de Augusta Emerita e ter uma relação muito forte do ponto de vista jurídico também com a própria Idanha”. Esta grande ligação à comunidade igeditana terá levado Quintus Tallius a oferecer-lhes um orarium.

Este ato de natureza política, assim como o facto de o relógio ter sido colocado num local indicado pelos magistrados, indica que a comunidade já estaria organizada e teria regras de funcionamento. O orarium era importante para a vida pública e administrativa romana, com horários bem estabelecidos para atos oficiais e cerimónias. Não se conhece, no entanto, se o relógio oferecido seria de água ou de sol, como o que também se pode ver na exposição.

Este simples ato de benemerência tinha então um impacto extraordinário na comunidade, pois regia toda a vida pública, e tornava necessário a consulta dos 4 magistrados locais, não sendo o ofertante ele próprio autoridade local, para indicação do sítio onde deveria ser colocado o relógio. Não se conhece as estruturas que acompanhavam estes magistrados em cidades pequenas, parecendo que estava, neste caso, relegado para os magistrados o que em municípios maiores era deixado para a assembleia dos decuriões, composta por antigos magistrados ou figuras proeminentes, e que atribuíam os “lugares para colocar estátuas, ou para colocar relógios, ou para qualquer fim”.

No que toca à onomástica destes magistrados, torna-se interessante perceber que estamos num outro mundo. O nome é único e escrito por extenso, ao contrário dos nomes romanos, indicam o nome do pai, pelo que estamos perante cidadãos livres, mas não são cidadãos romanos, antes são peregrini – cidadãos do território romano mas que não têm cidadania romana, podendo no entanto aceder a todas as magistraturas na sua cidade. Estamos, portanto, perante magistrados de origem local. Podiam vir a adquirir a cidadania romana, mas acrescentariam por essa ocasião um nome de família, correspondendo a mudança de nome a uma mudança de estatuto.

Por fim é mencionada a data da inscrição. Esta datação é-nos dada pela nomeação dos cônsules principais – magistratura epónima que define o ano ou a época. Nunca se repetiam os cônsules, arranjando sempre maneira de separar muito bem as diferentes magistraturas, recorrendo a artifícios como “na terceira vez de fulano e quarta vez de sicrano”, nunca se repetindo a mesma datação consular. A epígrafe indica-nos a data de 16 a.C., ano em que se pensa terá sido realizada a grande renovação administrativa deste território. Em 27 a.C. terá havido uma divisão administrativa da Hispânia Ulterior em Bética e Lusitânia, não sendo a última a que se conhece hoje, incluindo-se nessa altura territórios a norte do Douro até ao extremo norte da Península Ibérica. Só depois a sua fronteira foi restringida, ficando-se pelo rio Douro, muito provavelmente em 16 a.C. É nesta data que é ofertado o orarium aos igeditanos, “sinal da sua inauguração como cidade que começa a funcionar em pleno. Não deveria ser só tanto um primeiro funcionamento da província, é também um primeiro funcionamento das comunidades cívicas que ganharam nesse ano a sua autonomia”.

Assista à conferência na íntegra.