O conjunto anfórico da exposição “Lusitânia Romana. Origem de dois povos / Lusitania Romana. Origen de dos pueblos”

No passado sábado, dia 30 de janeiro, Carlos Fabião, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e um dos comissários científicos da exposição, escolheu “peças muito feias e deselegantes”, que para os romanos não valeriam nada, equiparando-as a “garrafas de tara perdida” mas que se pode questionar e ficar a saber tanto sobre o Império romano.

Começou por referir o porquê de serem diferentes. A forma, à semelhança das garrafas ou garrafões de hoje, “permitia ao consumidor ter uma expectativa sobre o conteúdo”, além disso fornece informações sobre o período cronológico em que foram feitas.

Sobre olarias, explicou o porquê de serem sobretudo na margem sul no estuário do Tejo e na margem norte do Sado.

Debruçou-se depois sobre o conteúdo, nomeadamente os preparados de peixe. Ao contrário da pecuária/pastorícia onde é possível fazer a gestão de rebanhos, o “pescador não pode gerir o produto da pesca” que, sendo geralmente superior ao consumo, gerava um excedente que era então aproveitado para conserva visando um consumo posterior, para uma alimentação mais equilibrada. Estes preparados, originários da parte atlântica do Império (sobretudo das costas atualmente portuguesas, com Tróia como maior complexo industrial), eram por isso muito apreciados, tanto na componente líquida (mais requintada e sobretudo usada como condimento) como pastosa (mais corrente).

Este comércio estaria fora da influência do estado romano, não sendo parte da distribuição institucional como os cereais e o azeite, quase que tidos como bens essenciais e por isso distribuídos à população da cidade de Roma que “teria seguramente um milhão de habitantes”.

Outras ânforas lusitanas transportariam vinho. Estas seriam fabricadas em propriedades rurais, onde o proprietário, para além da vinha e de meios para a produção de vinho, teria fornos e materiais necessários à produção de barro, contratando oleiros como mão-de-obra especializada para produzir as cerâmicas e envasar o vinho. O mesmo não sucederia no mundo da produção de preparados de peixe, não sendo o mar uma propriedade privada, havendo uma série de atividades económicas ligadas entre si.

A exportação de produtos da Lusitânia chegava aos mais variados pontos do Império, num “processo de disseminação bastante vasto de artigos que se cruzavam”, pelo que se pode mesmo falar numa “globalização” em época romana sobretudo mantido por via marítima.

Carlos Fabião destacou também a Tábua de Vipasca II (Aljustrel), cláusula jurídica que dá a conhecer como se processaria a exploração de uma mina em época romana, e chamou a atenção para o facto de nas calotes polares se ter retirado informação de que entre o séc. I e III houve “um pico de concentração de gases de efeito estufa, que se deveu às grandes atividades extrativas e sobretudo às grandes atividades transformativas”, pico que só foi ultrapassado depois do séc. XIX após a Revolução Industrial.

Seguiu-se depois uma visita à exposição, conduzida por António Carvalho e Carlos Fabião.

Assista a esta conferência, na íntegra.