V ESCVLTVRAS – O Sarcófago das Quatro Estações

V ESCVLTVRAS NA EXPOSIÇÃO
LVSITANIA ROMANA. ORIGEM DE DOIS POVOS
PROPOSTAS DE LEITVRA

Cátia Mourão*
Março de 2016 – quintas-feiras, das 18:00 às 19:00

Em cada uma das cinco conferências será destacada uma obra icónica da exposição Lusitânia Romana. Origem de dois Povos, onde a escultura em mármore tem presença relevante. Diferentes em termos estéticos, técnicos, iconográficos e funcionais, documentam aspectos fundamentais da romanização e dos processos de “marmorização” e aculturação religiosa da Província mais ocidental do Império. As apresentações partem da observação presencial das peças, compreendem uma comparação com outras obras visualmente próximas e adiantam propostas de leitura e contextualização.

Sarcófago de las 4 estacionesDia 31 – O Sarcófago das Quatro Estações (Monte da Azinheira, Évora)

Sarcófago em forma de lagar de vinho (lenos), originalmente coberto com tampa lisa, esculpido em alto-relevo na face anterior e em médio relevo nos topos: a frente está preenchida com uma composição horizontal, em dois planos, inscrita entre os rebordos superior e inferior, tendencialmente simétrica e centralizada num clipeus que encerra o busto do defunto, retratado como um homem adulto, de fisionomia africana, envergando túnica de manga comprida e segurando um uolumen. Lateralmente é sustentado por dois génios femininos, alados, e eleva-se sobre uma junta de bois conduzida por um camponês. Nos extremos estão personificadas as Estações do Ano, masculinas e aladas, interpostas pelas personificações da terra e da água, todos com respetivos atributos: à esquerda o Verão (com cesto de cereais e cornucópia partida) e o Inverno (com dois patos e cana), acompanhados por Tellus (coroada de espigas, com colar serpentiforme e cornucópia); à direita a Primavera (com cornucópia partida e cesto de flores, por onde espreita um erote) e o Outono (com cacho de uvas, ramo de videira e nébride com frutos), acompanhados por Oceano (com chifres e um ketos); no topo esquerdo (correspondente à cabeceira) dois putti pisam uvas num lagar, e no topo direito (correspondente aos pés) um pastor, ou fauno, toca siringe e transporta um cajado. É notória a diferença técnica e estética entre a composição frontal e as laterais, sendo a primeira bastante mais aprimorada do que a segunda, o que revela execução por diferentes mãos. A face posterior está irregularmente desbastada, indicando que o sarcófago foi concebido para ser encostado a uma parede. O interior, não polido, tem uma elevação na cabeceira para apoio do crânio, em jeito de almofada.

A forma e a iconografia seguem os modelos em voga na escultura funerária romana dos séculos II e III d.C. e demonstram as preocupações escatológicas sentidas neste período. A associação da imagem do defunto e dos seus génios às Estações, aos trabalhos do campo, às vindimas e à pastorícia, à Terra e à Água revela uma crença na vida além morte, na regeneração e no eterno-retorno.

O sarcófago provém de uma antiga necrópole romana localizada no Monte da Azinheira (distrito de Évora) e pertence à Câmara Municipal do Porto, estando em depósito no Museu Nacional de Soares dos Reis.

 

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* Cátia Mourão é Doutorada em História da Arte da Antiguidade pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA) e tem centrado a sua investigação na iconografia e iconologia clássicas, contemplando a evolução das imagens e dos seus significados até à actualidade.

É Directora do Museu da Assembleia da República, Investigadora Integrada e Membro da Comissão Científica do Instituto de História da Arte da FCSH/NOVA, onde também coordena a Linha de Antiguidade.

Tem organizado encontros científicos, co-comissariado exposições, participado em cursos livres, seminários académicos, colóquios e congressos, e integrado equipas de investigação internacionais, contando com várias publicações individuais e colectivas, nacionais e estrangeiras.