V ESCVLTVRAS – O Imperador divinizado

V ESCVLTVRAS NA EXPOSIÇÃO
LVSITANIA ROMANA. ORIGEM DE DOIS POVOS
PROPOSTAS DE LEITVRA

Cátia Mourão*
Março de 2016 – quintas-feiras, das 18:00 às 19:00

Em cada uma das cinco conferências será destacada uma obra icónica da exposição Lusitânia Romana. Origem de dois Povos, onde a escultura em mármore tem presença relevante. Diferentes em termos estéticos, técnicos, iconográficos e funcionais, documentam aspectos fundamentais da romanização e dos processos de “marmorização” e aculturação religiosa da Província mais ocidental do Império. As apresentações partem da observação presencial das peças, compreendem uma comparação com outras obras visualmente próximas e adiantam propostas de leitura e contextualização.

Emperador divinizadoDia 24 – O Imperador divinizado (Teatro, Mérida)

Estátua de vulto pleno, representando figura antropomórfica masculina adulta, de corpo inteiro, desnudado e hercúleo, de pé e em pose majestática. Está decapitada, mas na base do pescoço conserva o orifício para encaixe do espigão que segurava a cabeça (perdida). Tem duas infulæ sobre os ombros e um manto em volta da cintura, até aos joelhos. Os braços estão amputados abaixo dos ombros e as pernas abaixo do manto.

As infulæ indicam que a cabeça estaria coroada (possivelmente com a corona ciuica, de vergônteas de carvalho, árvore sagrada de Júpiter) e permitem identificar a figura como um Imperador; por seu turno, a nudez parcial, a compleição atlética olímpica e a escala superior à humana, aproximam-na da imagem de Júpiter, homologando simbolicamente o Imperador com a divindade capitolina. Assim identificável como a efígie de um Imperador romano divinizado (Diuus Imperator), do tipo Hüfmantel, a estátua testemunha a difusão do culto imperial na Lusitânia, onde foi introduzido na época de Augusto, que compreendia a adoração, consagração, apoteose e imortalização do soberano.

Datável de meados do séc. I d.C. e pertencente ao Museo Nacional de Arte Romano, a obra integrava a frons scænæ do Teatro de Mérida, juntamente com outros retratos imperiais de corpo inteiro e com as estátuas de Ceres, Prosérpina e Plutão (deuses que estão na génese das Estações do Ano), num conjunto que diviniza e eterniza os imperadores, afirmando-os como facilitadores da perpetuidade do tempo cíclico, da prosperidade e da harmonia. A eles seria prestado culto mais reservado numa Aula Sacra do peristilo do Teatro, onde se encontraram outras imagens de Imperadores como Augusto velado (enquanto Pontifex Maximus).

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* Cátia Mourão é Doutorada em História da Arte da Antiguidade pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA) e tem centrado a sua investigação na iconografia e iconologia clássicas, contemplando a evolução das imagens e dos seus significados até à actualidade.

É Directora do Museu da Assembleia da República, Investigadora Integrada e Membro da Comissão Científica do Instituto de História da Arte da FCSH/NOVA, onde também coordena a Linha de Antiguidade.

Tem organizado encontros científicos, co-comissariado exposições, participado em cursos livres, seminários académicos, colóquios e congressos, e integrado equipas de investigação internacionais, contando com várias publicações individuais e colectivas, nacionais e estrangeiras.