V ESCVLTVRAS – O Silvano

V ESCVLTVRAS NA EXPOSIÇÃO
LVSITANIA ROMANA. ORIGEM DE DOIS POVOS
PROPOSTAS DE LEITVRA

Cátia Mourão*
Março de 2016 – quintas-feiras, das 18:00 às 19:00

Em cada uma das cinco conferências será destacada uma obra icónica da exposição Lusitânia Romana. Origem de dois Povos, onde a escultura em mármore tem presença relevante. Diferentes em termos estéticos, técnicos, iconográficos e funcionais, documentam aspectos fundamentais da romanização e dos processos de “marmorização” e aculturação religiosa da Província mais ocidental do Império. As apresentações partem da observação presencial das peças, compreendem uma comparação com outras obras visualmente próximas e adiantam propostas de leitura e contextualização.

SilvanoDia 17 – O Silvano (Talavera de la Real, Badajoz)

Estátua de vulto pleno, representando figura antropomórfica masculina adulta, de corpo inteiro, com túnica curta formando kolpos e cruzada por nébride, de pé e em contraposto. Tem cabelo fino, apanhado atrás, rosto inexpressivo, de feições toscas e olhos não trepanados. Carrega uma pele de carneiro, frutos, pinhas e espigas na nébride, que sustenta com o braço esquerdo (fragmentado). No lado exterior da coxa esquerda sobressai um ponto de apoio ao ovídeo e, talvez, a um outro elemento outrora posicionado mais abaixo, hoje perdido (provavelmente um cão). Apresenta fractura na base do pescoço, que denuncia a integração da cabeça (originalmente feminina e adaptada) no corpo; o nariz perdeu-se, o braço direito está amputado acima do cotovelo e as pernas abaixo dos joelhos.

Trata-se de uma imagem de Silvano, entidade romana protectora dos bosques, da vida rural e da prodigalidade dos campos (numen syluarum) homologada com o etrusco Selvano e, presumivelmente, com o lusitano Endovélico, cujo culto terá atingido o máximo esplendor no séc. II d.C. Revela algumas proximidades iconográficas com Príapo, embora assuma uma atitude mais recatada e conglomere mais atributos: para além da pele de carneiro e talvez do cão (que indicam a extensão da sua protecção à pastorícia), poderá ainda ter associado um cipreste (que simboliza a sua ligação a Cyparissus), uma faca de poda, um cajado e até um pequeno altar (que remete duplamente para as oferendas sacrificiais e para a relação com os Lares).

Silvano é facilmente identificado em figurações integrais como esta, que pertence ao Museo Arqueológico Provincial de Badajoz. No entanto, pode também inferido ser em representações abreviadas, mormente circunscritas à cabeça, sob a forma de “máscaras” híbridas que combinam, numa estreita relação orgânica, a morfologia antropomórfica com os atributos vegetalistas, ou que constituem, in extremis, antropomorfizações da vegetação.

 

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* Cátia Mourão é Doutorada em História da Arte da Antiguidade pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA) e tem centrado a sua investigação na iconografia e iconologia clássicas, contemplando a evolução das imagens e dos seus significados até à actualidade.

É Directora do Museu da Assembleia da República, Investigadora Integrada e Membro da Comissão Científica do Instituto de História da Arte da FCSH/NOVA, onde também coordena a Linha de Antiguidade.

Tem organizado encontros científicos, co-comissariado exposições, participado em cursos livres, seminários académicos, colóquios e congressos, e integrado equipas de investigação internacionais, contando com várias publicações individuais e colectivas, nacionais e estrangeiras.