Intervenção do comissário António Carvalho na cerimónia de inauguração

Sejam muito bem-vindos ao Museu Nacional de Arqueologia.

Gostaria de iniciar esta minha intervenção contando-vos três pequenas Histórias aglutinadas numa mesma narrativa, plasmada na exposição que organizámos: a História de um território nos confins do ocidente peninsular, isto para quem observava desde Roma e do mediterrâneo, a história da fundação de uma cidade onde antes nada existia – Augusta Emerita –, para se constituir como uma capital provincial, e a criação de uma circunscrição jurídico-administrativa – a Lusitânia – que curiosamente recebe o nome de um dos povos – precisamente os Lusitanos – que as legiões romanas tinham vencido e submetido.

A província romana da Lusitânia, uma entidade administrativa criada há mais de 2.000 anos – entre 16-13 a. C. – é talvez uma das menos conhecidas pela historiografia, apesar de ser uma das mais interessantes, pela sua localização geográfica no Império Romano, como finis terrarum, pela diversidade de povos que a habitavam e recursos endógenos existentes, bem como pelo significado político da sua criação. Teve como capital a colónia de Augusta Emerita, cidade mandada fundar ex-nihilo, em 25 a.C., pelo próprio imperador Augusto, que incumbiu o seu genro Marcos Agripa de a criar e ali distribuir terras aos veteranos (aos eméritos) de duas legiões, essencialmente legionários itálicos, que integraram os contingentes militares envolvidos nas guerras de pacificação do noroeste da Península Ibérica, realizadas nos anos 20 do século I a.C. contra os povos Ástures e Cântabros.

Instalada num ponto estratégico do rio Guadiana, a capital desta província articulava a circulação entre outra província, a Bética (atual Andaluzia), as terras do noroeste peninsular e as do eixo meridional em direção à costa atlântica e ao seu principal porto, Olisipo. Augusta Emerita, ao contrário das outras capitais da Hispânia romana, não tinha uma saída direta para o mar, e daí que principalmente Olisipo, atual Lisboa, mas também a restante rede de importantes cidades implantadas junto aos rios Tejo e Sado – Scalabis (Santarém), Salacia (Alcácer-do-Sal) e Cetobriga (Setúbal) – constituíssem um complexo de “portas” de entrada e saída para o grande mar Oceano.

Com a “atlantização” do Império, a partir do governo do imperador Cláudio, em face da necessidade de apoio aos contingentes militares envolvidos na conquista da Britânia e da comunicação com a Germânia Inferior, a posição de finisterra da Lusitânia altera-se, sendo, a partir de então, também, um espaço de articulação na rota marítima entre o Mediterrâneo e as paragens setentrionais. A Lusitânia tornava-se essencial na criação de um verdadeiro Atlanticum Nostrum que os romanos acrescentaram ao seu Mare Nostrum, o Mediterrâneo.

Roma trouxe assim consigo e expandiu a sua ideia de Estado e a sua Cultura a todo o território peninsular, articulando uma rede de infraestruturas e gerindo um tecido político, administrativo e religioso com a figura da cidade como eixo fundamental. Este feito histórico dilatou-se ao longo de cinco séculos e do seu legado patrimonial disfrutam hoje tanto Espanha como Portugal. De forma especial, a província da Lusitânia é um paradigma de uma realidade cultural que une ambos os estados.

Esta província romana ocupava então, sensivelmente, grande parte de Portugal, entre o Douro e o Algarve e a atual Extremadura espanhola. Quis a História que este território que os romanos unificaram geográfica, política e administrativamente ficasse repartido por duas nações: Portugal e Espanha.

A exposição “Lusitania Romana. Origen de dos pueblos / Lusitânia Romana. Origem de dois povos” apresentou-se primeiro no Museu Nacional de Arte Romano, em Mérida, entre 23 de março e 30 de setembro de 2015, e agora mostra-se neste Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa até junho de 2016, encerrando o programa cultural “Mostra Espanha 2015”, promovido pela Accion Cultural Espanhola.

Recordo que esta exposição começou a ser planeada para efectivamente se concretizar durante o programa da “Mostra Espanha 2013”, dedicado ao tema “Extremadura es Cultura”, que colocou finalmente a Arqueologia em primeiro plano e que teve neste Museu Nacional de Arqueologia especial enfoque visto que aqui se realizou um programa de conferências com arqueólogos dos dois países.

Esta exposição é prova cabal de um novo conceito que, não olhando aos territórios separados pela fronteira política, recupera as fronteiras históricas romanas que, ao longo das últimas décadas, historiadores e arqueólogos da Antiguidade Clássica, espanhóis e portugueses, mas também de muitas outras nacionalidades, têm afincadamente valorizado no seu trabalho, realizando uma investigação que trata a Lusitânia como um todo. Muitos desses investigadores deram importantes contributos para o catálogo disponível ao público.

Esta dinâmica foi estruturada ao longo de décadas, através da colaboração intensa entre instituições de referência, universidades, museus e investigadores de diversos países, que formam o “Grupo Lusitânia”, e reforçada decisivamente pelo ciclo das “Mesas Redondas da Lusitânia Romana”, iniciado em Talence (Bordéus), em 1988 e, desde a 2.ª edição, realizadas alternadamente em cidades espanholas e portuguesas, com um breve regresso a França (Toulouse), e que teve em Jean-Gérard Gorges um entusiástico dinamizador, acompanhado por outros investigadores.

Este movimento permitiu fomentar e afirmar a criação de uma historiografia emeritense e lusitana, que tem um expoente na série “Studia Lusitana”, instituída pelo Museo Nacional de Arte Romano, e incansavelmente dinamizada por Trinidad Nogales, e na cooperação entre investigadores de ambos os países, processo no qual esta exposição é simultaneamente um ponto de chegada, mas também de partida para novos projectos.

Reunimos nesta exposição, 210 bens culturais de inegável interesse arqueológico, histórico e artístico (sendo 81 de Portugal e 129 de Espanha), pertencentes a museus e instituições culturais – catorze instituições de Portugal e cinco de Espanha – de diferentes tipologias e tutelas. No conjunto, apresentamos peças de museus nacionais, regionais, municipais e de outras instituições, bens fundamentais do seu acervo, muitos deles integrados nas exposições permanentes das entidades emprestadoras e que dificilmente se voltarão a reunir.

Estes bens circularam em segurança entre os dois países acompanhados competentemente, em território espanhol pela Guarda Nacional, e, em Portugal, pela Polícia Judiciária, forças policiais cujo apoio quero aqui reconhecer publicamente.

Com esta exposição, este Museu Nacional cumpre, também, a sua função de Museu de referência e de apoio a outros museus no quadro da Rede Portuguesa de Museus, orientado para a valorização dos acervos em Portugal e para a internacionalização do património cultural português.

Numa museografia muito apelativa da autoria da Arquitecta Manuela Fernandes, com a colaboração da Arquitecta Leonor Pereira, estes bens culturais são distribuídos por nove diferentes núcleos ilustrando quase mil anos de história.

A exposição termina com imagens do “Legado Romano” no território português e da Extremadura espanhola, decididamente um convite para uma visita.

O visitante encontrará muitas formas de aceder aos conteúdos desta exposição muitos deles em português, inglês e castelhano: presencialmente tem os indispensáveis textos de parede, tabelas com legendas, traduções de textos de inscrições, QR-CODES e reconstituições virtuais de peças e espaços, disponíveis em molduras digitais, bem como uma experiência piloto neste Museu de áudio-guias, em várias línguas, accionados, por infravermelhos, projecto desenvolvido pela empresa YPT-PODCAST & TECNOLOGY, de Braga, em parceria estabelecida com o nosso Grupo de Amigos, a partir de conteúdos fornecidos pela nossa equipa. De Mérida já temos um catálogo em espanhol, agora um catálogo em português de quase quatrocentas páginas e uma folha de sala em espanhola complementam a oferta em Lisboa.

Para atrair e transformar potenciais interessados em reais visitantes um site específico da exposição foi criado para servir de repositório da exposição e garantir a sua continuidade em Lisboa e no futuro. A exposição está ainda presente em todas as plataformas comunicacionais actualmente à nossa disposição.

Esta mostra é o resultado da determinação, da competência científica e do poder executivo de um consórcio que tomou a seu cargo a respetiva organização: o Museu Nacional de Arte Romano, o Museu Nacional de Arqueologia e a Junta da Extremadura, com a colaboração científica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, suportados pela Direção-Geral do Património Cultural do Ministério da Cultura, em Portugal, por distintas Direções Gerais do Ministério de Educação, Cultura e Desporto de Espanha e também da Junta de Extremadura, além de outras instituições da cultura e turismo de ambos os países.

Todos os bens culturais expostos são segurados pela Lusitania Seguros, mecenas institucional da Direção-Geral do Património Cultural português, a quem agradecemos.

Esta exposição é acompanhada por um catálogo com textos de investigadores de cinco países, simultaneamente uma síntese e atualização da investigação realizada nas últimas décadas, publicado no âmbito da parceria editorial existente com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Uma excelente oportunidade para mostrar o legado romano na Lusitânia, com o fim de suscitar e ampliar o interesse do público e da comunidade científica internacional pelo tema.

A terminar, permitam-me algumas referências especiais:

Aos dois outros comissários – José María Alvarez Martínez e Carlos Fabião – queridos amigos e companheiros desta caminhada e a todos os investigadores que nos ajudaram, bem como uma pequena equipa de técnicos dos dois Museus Nacionais Lisboa e de Mérida, e outros colaboradores pertencentes a muitas instituições, e que se juntaram a nós para cumprir este objectivo. Os seus nomes estão indicados na ficha técnica na exposição e no catálogo. Bem hajam por tudo.

Aos funcionários da nossa Direcção-Geral do Património Cultural que corresponderam a este desafio contribuindo, de muitas formas, para uma exposição que também ajudaram a concretizar. Sem muitos deles o que vos apresentamos não teria sido possível.

À Marinha portuguesa por nos ter cedido esta Torre Oca para que possamos acolher no mesmo espaço tantos convidados e realizar esta cerimónia e o convívio que se seguirá com a indispensável dignidade. A oficina de Museus ajudou-nos a materializar com rapidez e eficácia essa decisão. Bem hajam pois.

A todas as empresas: de transporte de bens culturais entre ambos os países ITERARTIS e a EXGOARTE; de produção da exposição Oliveiras, Engenharia e Construções; Construções J. C. Sampaio que nos apoiaram na museografia; de concepção e produção gráfica, os FBA e “De Metro a Metro”, que materializaram o nosso projecto. A todos muito obrigado.

Uma exposição com tanta amplitude geográfica pedia uma diversificada gama de produtos da gastronomia, pelo que gostaria de agradecer publicamente a um conjunto de entidades que, de alguma maneira, já estavam ligadas a esta exposição internacional e a este Museu e aceitaram juntar-se a nós, mais uma vez, para nesta inauguração, no final da visita, voltarmos a esta Torre para participarmos em alegre convívio provando os produtos com marcas nacionais por cuja produção são responsáveis.

O convívio que se vai seguir neste espaço é-nos proporcionado pela Central de Cervejas, pelo que agradeço o apoio fundamental e insubstituível ao Dr. Nuno Pinto de Magalhães, amigo deste Museu Nacional e do património cultural português, bem assessorado no terreno por Paula Portugal, e sempre à casa de referência de Belém, os Pastéis de Belém, na pessoa do Dr. Miguel Clarinha, mas também às Câmaras Municipais de Alter do Chão e Vila Franca de Xira, Casa PAINOVA de Freixo de Numão, e à Delegação da Extremadura em Lisboa que nos apresentam os preciosos néctares vinícolas que as regiões que representam produzem, bem como ao El Corte Inglés, na pessoa da Dr.ª Susana Santos, que está sempre disponível para nos apoiar e como é esperar, ao nosso Grupo de Amigos, na pessoa do seu Presidente Professor Doutor Luís Manuel Araújo, sempre pronto para complementar os apoios.

Sem todos os que acabo de nomear e muitos outros, que por falta de tempo compreensivelmente não refiro em detalhe, mas que decerto me desculparão, o que apresentamos hoje não seria de todo possível.

Congregámos o trabalho de muita gente para que as muitas histórias que nesta mostra vamos contar sejam agora disfrutadas por todos vós, fazendo deste Museu e desta exposição um lugar obrigatório na vida cultural nacional e peninsular neste primeiro semestre de 2016.

Conto convosco para nos ajudarem a concretizar este objectivo.

Muito obrigado pela vossa atenção.

 

Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia, 25 de Janeiro de 2016.

António Carvalho

Diretor do Museu Nacional de Arqueologia e

Co-Comissário da exposição