Intervenção do comissário Carlos Fabião na cerimónia de inauguração

A Exposição Lusitânia Romana Origem de dois povos / orígen de dos pueblos constitui um evento extraordinário. Pela primeira vez, apresenta-se ao público a Lusitania Romana na sua integridade, rompendo com uma longuíssima tradição de séculos.

A província romana da Lusitânia, a mais ocidental de todas as províncias do Império, estende-se desde o Atlântico português, às terras interiores de Medellín e Ávila, repartida, pois, entre Espanha e Portugal.

Desde o século XVI, que os Humanistas e eruditos portugueses, com André de Resende como referência, utilizaram a palavra Lusitania, para designar o reino de Portugal, por oposição ao mais generalista conceito de Hispania (que englobava toda a Península Ibérica) usado pelos Humanistas espanhóis; naturalmente, a utilização do Latim como língua franca de eruditos propiciou a cristalização destas denominações. A tradição frutificou e de Alcobaça saiu uma Monarquia Lusitana, que mais não foi que primeiro e extenso ensaio de uma história de Portugal; D. João V, no Alvará de 1721, que estabelece a primeira protecção genérica para o que chamamos hoje Património Histórico – Arqueológico, correspondendo a solicitação da Real Academia da História Portuguesa, afirma que o faz em defesa da reputação, e gloria da antiga Lusitania, cujo dominio e sobreania foy Deus servido darme, ou seja, rei de Portugal era sinónimo de monarca da antiga Lusitania.

A consumada divisão política condicionou fortemente a evolução dos estudos. José Leite de Vasconcelos na sua obra Religiões da Lusitânia ocupa-se na realidade “da parte que principalmente se refere a Portugal“, como indica o subtítulo, enquanto em Espanha se estudava sobretudo a Lusitania Oriental. De cada lado da fronteira, escassa importância se dava ao que se passava ao lado.

Assim continuámos desavindos, com uma fronteira política que não só dificultava a comunicação, mas criava uma verdadeira zona de sombra, quer do lado português quer do espanhol, para onde ninguém olhava e que ninguém investigava, consumando assim a separação entre essas duas Lusitânias: a marítima, sinónimo de Portugal, a continental, em terras de Espanha. Os espanhóis privados de usar o próprio nome Lusitania, estabelecida que estava a sinonímia com Portugal; os lusitanos ocidentais privados da sua antiga Capital (Augusta Emerita / Mérida) que ficara do outro lado da fronteira.

A rivalidade e competição constituíram a norma. O processo de escavação, conservação a valorização do património arqueológico emeritense começou em 1910. Do lado português, excepção feita a alguns ensaios pioneiros de escasso alcance e sem continuidade, teve na década de 30 do século XX o grande arranque das intervenções em Conimbriga, com a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais a proclamar ter iniciado: “trabalhos definitivos, sem mais hesitações ou retrocessos [em] uma das mais civilizadas cidades da Lusitânia romanizada, émula da orgulhosa Mérida, e o mais importante agregado social de todo o território (hoje português) compreendido entre o Douro e o Tejo“. Na década de 60, aquando da inauguração do Museu Monográfico, o Ministro da Educação afirmou ser Conimbriga uma das mais importantes estações arqueológicas do Mundo“. Para lá do desajustado encómio, haverá a reter o facto de se tratar de émula da orgulhosa Mérida – assim se combatia o sentimento de orfandade, por não estar a capital provincial em solo português e, pela exibição da mais importante estação arqueológica do mundo, se afrontava a orgulhosa Mérida

Naturalmente, a boa relação pessoal entre os estudiosos dos dois lados da fronteira foi sempre uma constante, desde os tempos em que Antonio García y Bellido e Fernando de Almeida privavam e desenvolviam boa colaboração. Por outro lado, hispanistas de outras latitudes, como Jean-Gérard Gorges, Patrick Le Roux ou Jonathan Edmondson tiveram a virtude de, sendo estrangeiros a ambos países, terem sabido olhar sempre a Lusitania romana sem a fronteira política posterior. Mas o contexto político e institucional não era propriamente favorável a tais intercâmbios (de Espanha, nem bom vento nem bom casamento, dizia-se aqui em Portugal).

Com a consolidação da Democracia em ambos países ibéricos, a adesão à Comunidade Económica Europeia (hoje União Europeia) e a criação do Espaço Schengen, as condições mudaram e a atitude também. Não só as fronteiras físicas se esbateram, como surgiram novas vias de cooperação e intercâmbio transfronteiriço.

A partir dos mencionados hispanistas e do Museu Nacional de Arte Romano surgiram importantes iniciativas como as Mesas-redondas internacionais sobre a Lusitânia Romana e uma colecção como a Studia Lusitana, entre outras iniciativas, definindo claramente o novo objecto de trabalho: a antiga província romana, sem a fronteira história a dividi-la.

O que agora se apresenta, não é uma exposição portuguesa, que incorpora peças espanholas, como em Mérida não foi uma exposição espanhola com peças portuguesas. Foi um projecto conjunto, idealizado, desenhado e projectado em comum, entre Espanha e Portugal, desde a primeira hora, e o facto de existir quase paridade entre peças procedentes de instituições espanholas e portuguesas não constituiu nenhum pacto ou cedência à “correcção política”. O acervo foi escolhido em função do discurso expositivo que se desenhou, independentemente da origem ou local de depósito de cada peça e este foi o resultado final. O que se pretendeu foi recuperar, valorizar e apresentar uma história comum de mais de quatro séculos e uma herança cultural profundamente inscrita nas paisagens há mais de vinte.

A presente exposição Lusitânia Romana Origem de dois povos / orígen de dos pueblos constitui-se, simultaneamente, como corolário de um processo, pretendendo também constituir ponto de partida para outras iniciativas. É verdadeiramente de uma refundação da antiga província romana, transformada em objecto de estudo, para que não mais faça sentido falar de uma Lusitania na parte que principalmente se refere a Portugal ou de uma Lusitania oriental, mas tão-somente da província romana da Lusitânia, origem e matriz de dois povos actuais, nossa herança comum.

Lisboa, 25 de Janeiro de 2015.

Carlos Fabião

Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e

Co-Comissário da Exposição